Videodrome

 
             

   
 
 

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

 
Mais um ébrio episódio puxado dos arquivos Mano News. Este datado de 1º de setembro de 2003, narra a vez em que acabei bêbado e perdido no Jaçanã.

Certo, vamos nessa:

Sábado foi dia de DJ Club. Fui para lá com o Milguêrs e a Dani. Quando estávamos na plataforma do metrô Santana, já munidos do indispensável litro de vinho frizante, escutamos um estrondo que vem da avenida Cruzeiro do Sul. Olhamos e lá estão estendidos no chão, um motoqueiro, seu namorado, e claro, sua moto. Aglomera-se aquela muvuca de manés, e entre uma e outra piada infame que fazemos, percebemos de cara que a balada vai ser daquelas. Sinais, mora? Assim que chegamos à rua Pamplona, já paramos num bar, pedimos várias legítimas, antes de adentrarmos a casa. Uns amigos da Dani juntam-se a nós, e as porcarias que falamos ganham status de arte. Claro que antes de sair do boteco, peço uma Soft-Mary para viagem. Entrando no DJ, rola uma caipora de pinga, depois peço algumas brejas, outra caipora, só que agora de vodka, e... fudeu! Começo a alucinar, como é de praxe, falar coisas sem sentido, como é notório, e acabo ficando mal. Após um longo descanso na portaria, trocando idéia com o Segurança Gente Finíssima, com o Mano do Hot-Dog e com a Hostess Delícia, acabo melhorando. Sou estilo o Wolverine, meu fator de cura funciona melhor quando mais requisitado. Pelo resto da noite não bebo mais, já pensando no...

Domingo. Saio por volta das seis e meia da tarde para ir ao Bar do Aranha, assistir aos show do Transistors, Sniff my Balls e Skywalkers. Encontro o bêbado do Benicio no boteco, já munido da internacionalmente reconhecida Canelinha de Artur Alvim. Um fato curioso: Lembram do cara que tentava ligar para sua namorada em Portugal, de quem comentei em "A Saga Mod de Milguêrs e Malta"? O safado estava no boteco, mas não perguntei se ele tinha conseguido completar sua ligação transcontinental. Antes de entrar, encontramos a Monika e a Viviane. Esta última, sendo a minha paixão não consumada. Uma vez dentro do Aranha, recomeçamos a Saga das Cervejas, e uma hora mais tarde, o Benicio saiu para buscar o litro de canelinha, que havia escondido num arbusto próximo. Nada define melhor o quão toscos somos, do que esta cena em particular: O desgraçado volta com a canela, eu peço um copo ao barman e começamos a falar sobre a exposição do Napoleão. O resto da balada do Aranha não é muito mais do que isso, mas em compensação há espaço para minha performance solo no...

Jaçanã. Saí por volta de 20 para a meia-noite do bar. Não estava bêbado, apenas divertido. Peguei o ônibus, e um pouco depois do metrô Tatuapé, começou a soar o divino som de trombetas, e estranhei, afinal, não curto trombetas ou nada parecido. Continuei andando para ver se encontrava algum boteco aberto, mas não tinha nenhum naquela porqueira de lugar. Reparei então que estava com uma roupa um pouco apertada, e quando olhei, era o uniforme do Batman. Não a dos filmes, mas a da série dos anos 60. E a minha barriga parecia uma cópia fiel da proeminente pança do Adam West. Pensei algo como: "mas que diabos...", e notei que segurava em uma mão um copo de martini, mexido, não batido. Tomei o líquido vital, e quando olho para o lado, vejo o Gilberto Barros. Gritei como só mulheres bêbadas conseguem. Antes que tivesse um ataque cardíaco fulminante, ele começou a falar: "Cara, aqui é o ponto final". Acordo com um sobressalto e desço do ônibus. Quando percebo, estou numa praça completamente escura. Murmuro "Mas que porra..." e o ônibus vai embora, levando o último resquício de luz. Olho para o relógio e são dez para a 1 da manhã. Quando começo a ficar fudido com o fato de ter perdido o meu ponto, e ido parar no meio do nada, começa uma crise de riso. Acendo um cancerígeno, e saio andando pela rua. Após um ou dois quarteirões, reconheço um colégio, e começo a fazer uma pequena idéia de aonde estou. Graças à providencial sorte dos perdedores, encontro um táxi. Grito "Siga aquele carro", e vou-me, dentro daquele monstro de metal. Entre um monte de risadas, relato minha jornada ao nobre profissional que tanto auxilia os irmãos ébrios noite afora. Rimos de minha pequena aventura burguesa, e chego em casa ainda rindo. Parafraseando uma música do Manic Street Preachers, ninguém sabe como é uma merda ser eu.

*** *** ***

Em tempo: Transistors é bem legal, Sniff my Balls é uma porcaria, e no Skywalkers, eu já não sabia mais de nada. Na pista do DJ Club, rolaram várias músicas horrorshow, como "Blue Monday", "Psycho", "Kinky Afro", "Every You Every Me" e um montão de outras que não me recordo agora.

Trilha-Sonora: Este pequeno relato foi escrito ao som de poucas músicas. São elas: "Sister Ray", "Sweet Jane", "White Light/White Heat" e "Venus in Furs", do Velvet Underground. "My Girlfriend's Girlfriend", do Type O'Negative, "Nearly Lost You", do Screaming Trees e "Sober", do Tool.

Para Finalizar: Estas linhas foram patrocinadas por Canelinha Artur Alvim, aquela que nunca diz não.

Para Finalizar de Verdade: O Mano News está de luto, devido ao falecimento do gigantesco Charles Bronson. Agora o Paul Kersey vai poder matar novamente, os caras que assassinaram sua esposa.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 1:10 AM

Não enche!

Terça-feira, Janeiro 12, 2010

 
Às vezes é difícil pensar. E quase sempre é ainda mais complicado fazer com que esses pensamentos se tornem palavras.

Estava com vontade de escrever um monte de coisa, mas de repente a escrita ficou pesada demais. Na minha cabeça formou-se um enorme branco, praticamente uma parede, que não deixa nada passar.

Aos poucos algumas frestas começam a aparecer. No entanto, nada que passa por elas é realmente algo que valha a pena.

Costumo ser intenso em tudo que tenha relação comigo. Mas me canso fácil.

Estou cansado agora. Não sei até quando.

Pouco importa. Logo começará tudo de novo.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 1:26 AM

Não enche!

Terça-feira, Janeiro 05, 2010

 
Desenterrado dos arquivos do Mano News. Escrito numa segunda-feira, 24 de janeiro de 2005. Quase 5 anos atrás.

36 Hour Party People

Tudo começa às 17:30 hs de sexta-feira.

Junto de Kate e Erica, assisto ao O Operário, que mostra Christian Bale (Velvet Goldmine, Psicopata Americano e o novo Batman do cinema) como um cara que não dorme há 1 ano, trabalha numa metalúrgica e que tem vários indícios de esquizofrenia. Filme um tanto quanto primitivo, que parece mais do que é, já que pega uma temática que não tem absolutamente nada de novo, e que pouco acrescenta a ela. Destaque mesmo é a atuação, principalmente física de Bale, a fotografia em tons mais foscos, assim como o visual meio angustiante da fita.

Após a sessão marcada por perguntas como "Ricardo, você tá gostando do filme?" ou ataques histriônicos diversos, chegamos à Rua Augusta e a seus formosos botecos. Primeiro o Monarca, depois o Charm. Em algum momento juntam-se a nós, Ana e Marcelo. Cervejas, rabos de galo, Hoje é dia de Maria, aditivos ilegais, e um bocado de merdas diversas fazem destes antros lugares aonde sonhos são forjados e cruelmente humilhados.

Em algum horário mal-definido por Deus e reverenciado pelo Diabo, acabamos parando num boteco (novas!) próximo ao Bixiga. Mais brejas, mais merda e mais tudo, com destaque para o jogo "Descreva a pessoa com uma palavra". Como dizem, o fundo do poço é apenas um conceito.

Junto aos atores supra-citados, uma ébria passada em casa, depois um ligeiro cochilo na casa da Kate.

Atrasados e ressaquentos, encontramos Geraldo e Silvone, e saltitantes vamos a um casamento em Itatiba. Numa viagem aparentemente sem fim, muitas referências mal-dadas e humor negro à vontade nos embalam até nosso destino, o sítio do matrimônio. Um sol de rachar dá lugar a uma chuva incessante. E a abundância de bebida e comida só encontram um obstáculo, a falta de pessoas (garçons) que as levem até os convidados. Detalhes. Como diria o sábio Geraldo, se for para tomar chuva aqui, prefiro tomar em São Bernardo. Pois é!

Dou uma rápida passada em casa, tomo um banho e vou ao metrô República aonde encontro com Erica, Izabella, Ana e Kate. Juntos vamos à casa do Thiago e da Michele, para uma básica baladinha de sábado. Passam por lá Zé Mário, Renato, Maria, Kátia e alguns outros que não conheço.

Benflodrinks, Pinã Coladas, Caiporas das mais diversas, Sardella, fumaça pra lá e pra cá, danças coreografadas, falta de noção, raios por todos os lados, patês de beringelas, gritaria, caos, uma balada batutíssima.

Como cochilei durante a madrugada, acabo indo embora lá pelas nove da manhã junto com o Zé, que também havia dormido muito, deixando para trás o resto da trupe que tinha acabado de bodear.

Após uma viagem de ônibus com rádio alto para cacete, que obviamente só poderia estar rolando os sambas mais toscos possíveis, chego à imponente Estação Júlio Prestes. A andada básica até um outro ponto de ônibus à frente do metrô Luz me faz pensar sobre a vida e a morte, a grandiosidade do espírito, as drogas que ainda não experimentei, e várias outras coisas que preenchem o meu cérebro enquanto a fumaça de um cigarro inunda meus pulmões e tira alguns minutos que poderia viver a mais. Uma vez mais dentro de um ônibus, resigno-me com a minha insignificância e paro de pensar, até chegar em casa.

Tudo acaba às 11:30 hs de domingo.

*** Trilha-sonora: John Coltrane com Afro Blue, U2 com Vertigo e Sometimes you Can't Make it On, Guns'n Roses com Civil War, Deep Purple com King of Dreams, além de vários sons do Queens of the Stone Age gravados de um show da semana passada em prol das vitimas das ondinhas na Ásia.***

RICARDO MALTA BARBEIRA - 4:31 PM

Não enche!

Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

 
Time UHQ 2008



Eu (1), Diego (2), Guilherme (3), Nara (4), Zé Oliboni (5), Codespoti (6), Ronaldo Barata (7), Nasi (8), Delfin (9) e Ramone (à frente).

A caricatura é de autoria do Barata e foi feita em homenagem ao aniversário do Sidão.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 10:15 AM

Não enche!

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

 
Somente para constar: estou vivo.

Logo mais tentarei voltar a postar com mais regularidade... ou não.

Já cansei de repetir essa frase e acabar não mantendo a palavra.

Bem, ao menos o meu twitter continua sendo atualizado.

http://twitter.com/ricardomalta

RICARDO MALTA BARBEIRA - 3:51 AM

Não enche!

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

 
De volta ao Brasil depois de duas semanas a trabalho na Argentina.

Claro que também rolou diversão...



Pena que aqui a coisa é diferente.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 5:20 PM

Não enche!

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

 
Uma citação do Neil Gaiman que já conhecia e que reli ontem no Blog do André Forastieri.

Casa perfeitamente com o dia de hoje e com todos os outros. Os que ficaram no passado e aqueles que ainda não vieram.

“I’ve been making a list of the things they don’t teach you at school.

They don’t teach you how to love somebody.

They don’t teach you how to be famous.

They don’t teach you how to be rich or how to be poor.

They don’t teach you how to walk away from someone you don’t love any longer.

They don’t teach you how to know what’s going on in someone else’s mind.

They don’t teach you what to say to someone who’s dying.

They don’t teach you anything worth knowing.”


RICARDO MALTA BARBEIRA - 2:45 PM

Não enche!

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

 
Objeto do Desejo

E pensar que ele acreditou em você.
Contou seus estranhos segredos,
e até se entregou ao amor.

Não poderia saber quem você era.
A idéia de que alguém tão bela,
poderia botar uma arma em sua cabeça era irreal.

Você nunca se apaixonou de verdade, não é?
Só um coração morto pode ser assim.
Não existe mágoa para quem nunca amou.

De que diabos você é feita?
Parece alguma coisa infernal à procura de almas.
Algum mal ancestral encarnado.

Nada afeta sua sina de dor,
nenhum percalço inviável,
nenhuma vida que te faça pensar.

Tão vil e tão sensual,
uma força indomável,
uma criatura da luz e das trevas,
uma mulher para toda uma existência.

[18 de Outubro de 2004]


RICARDO MALTA BARBEIRA - 11:48 AM

Não enche!

Terça-feira, Setembro 15, 2009

 
Parece que vai virar tradição setembro ser um mês muito mais bizarro do que a média dos demais.

Aconteceram coisas (pessoas?) excelentes, mas também um punhado de fatos dignos de esquecimento.

Passei os 7 primeiros dias do mês me embebedando no melhor estilo Ben Sanderson. Entre dois entardeceres houve espaço para sentir algo que já parecia apenas nostalgia.

O mundo até que não parece tão ruim, mas é que é muito stress por tranqueiras que não tem a menor importância.

Já sobre a labuta... bem... por onde começar? Pelo fim. Que tal resumir em uma palavra: vagabunda?

Parece até poesia.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 4:37 PM

Não enche!

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

 
Dia horrível. Cheio de baixas expectativas. Lamentos. Rancor. Falta de vontade. Basicamente o horror.

Parafraseando (como sempre) Álvaro de Campos, o que há em mim é sobretudo cansaço. Não disto nem daquilo. Nada em especial. Um cansaço da alma e do corpo. De tudo e de todos.

Em algum momento isto tem que acabar.

[álvaro de campos - o que há em mim é sobretudo cansaço]

RICARDO MALTA BARBEIRA - 3:56 PM

Não enche!

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

 
Desejos...

Como estou sentindo meus dedos?
Todas aquelas pequenas articulações?

Diga que não se importa comigo,
que não quer mais me ver,
que lamenta ter me conhecido,
que perdeu tempo demais com nada.

Sou a metade vazia que você temia,
aquele abismo de que falam as canções,
um verso perdido que não rima,
a mesma nota desafinada de antes.

Convença a si mesma que não presto,
sou abjeto e estrago o que toco,
um qualquer a quem você deu atenção,
um acidente que poderia ser evitado.

Foram minhas palavras aveludadas que enganaram,
meus olhos profundos e sem vida,
gestos falsos que imitavam amor,
promessas implícitas nunca ditas.

Porquê continua a achar que está enganada?
Como irá se guiar sem ter a quem odiar?

[24 de Abril de 2003]

RICARDO MALTA BARBEIRA - 6:23 PM

Não enche!

Terça-feira, Agosto 25, 2009

 
Ainda no escritório. Escutando um ao vivo do Muse enquanto espero para descer e começar uma noite de orgia alcoólica branda.

Faltam oito dias para o meu aniversário e como este ano o inferno astral ainda não deu as caras, irei aproveitar ao máximo.

Ano passado, quando ele chegou, me derrubou de uma tal maneira que só estou conseguindo me reerguer agora.

Muito disso porque me importo demais. Seja com o amor, seja com a dor.

Rumo ao bar!

RICARDO MALTA BARBEIRA - 6:44 PM

Não enche!

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

 
"Nossas guitarras são mais substitutos de clitóris do que de falos - acariciamos elas de uma maneira mais gentil e suave", Greenwood disse uma vez; quando lembro disso, ele diz que roubou a frase do Slowdive, outro grupo da região do vale do Tâmisa. "Acho que guitarras são idolatradas demais como instrumentos. Todos os guitarristas de que gostei tinham a abordagem do Bernard Sumner. É a coisa do 'não-treinamento'. Gosto do que o Tom Waits disse sobre só pegar num instrumento se ele vai compor uma música."

Trecho do livro Beijar o Céu (Conrad Editora), em que o autor e jornalista Simon Reynolds conversa com Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 2:07 PM

Não enche!

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

 
Bourbon Street Fest 2009

Rolou no último sábado no Parque do Ibirapuera a abertura da 7ª edição do Bourbon Street Fest.

Uma tarde ensolarada e maravilhosa foi o complemento perfeito para ótimos shows. E isto também colaborou para eu tomar umas 10 cervejas em duas horas e acabar fazendo um papelão, xingando a datadíssima banda que fechou o evento.

Para abrir, a banda do caminhão-palco, Dixie Square Jazz Band, levando um jazz tradicional misturado com elementos desta Terra de Santa Cruz, fora um estourado bom-humor.

Na sequência o melhor do dia, Glen David Andrews e a sua banda. Munido de seu trombone Glen David andou em meio à platéia, foi carregado pela galera e enlouqueceu todo mundo que se encontrava nos arredores. Fora ser um dos melhores frontman que já vi ao vivo, ele e a banda ainda levaram músicas de Louis Armstrong, Michael Jackson, Jimi Hendrix e uma estupenda versão de Let's Stay Together de Al Green. Apresentação incendiária.

Marcia Ball veio a seguir e diminuiu um pouco o ritmo, enquanto a noite caía de maneira suave no parque. Mas sua voz e sua banda não deixaram a qualidade cair nem um pouco. Apesar disso eu fiquei mais perambulando do que propriamente concentado no show, mas a trilha-sonora foi excelente.

Para fechar Kurt Brunus Project e a chatice típica das bandas de rythym & blues da segunda metade da década de 1970. Chato chato chato! Uma leitura quase honesta de Mercy Mercy Me/What's Goin On' (Marvin Gaye), uma de Don't Stop Believin' (Journey) em que tiveram a ousadia/covardia de omitir o refrão que encerra a música e uma cover tenebrosa de Mas Que Nada (Jorge Ben) na versão antológica de Sergio Mendes e seu Brazil 66. Péssimo.

No final das contas um sábado espetacular para se encontrar com vários amigos queridos, se esbaldar em vícios e apreciar bons sons.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 10:23 AM

Não enche!

Quinta-feira, Julho 30, 2009

 
"Profundos prazeres do vinho, quem não os conhece? Quem quer que tenha tido um remorso a aplacar, uma lembrança a evocar, uma dor a esquecer, um castelo na Espanha a construir, todos enfim já o invocaram, deus misterioso escondido nas fibras da videira. Como são grandes os espetáculos do vinho, iluminados pelo sol interior! Como é verdadeira e abrasadora esta segunda juventude que o homem dele retira! Mas como são, também, perigosas suas volúpias fulminantes e seus encantamentos enervantes. E, no entanto, digam, do fundo da alma e da consciência, juízes, legisladores, aristocratas, todos vocês a quem a felicidade torna doces, a quem a fortuna torna a virtude e a saúde fáceis, digam quem de vocês terá a coragem impiedosa de condenar o homem que bebe o gênio?

Além disto, o vinho não é sempre este terrível lutador certo de sua vitória e que jurou não ter nem piedade nem misericórdia. O vinho é como o homem: não se saberá nunca até que ponto podemos estimá-lo ou desprezá-lo, amá-lo ou odiá-lo, nem de quantos atos sublimes ou perversidades monstruosas ele é capaz. Portanto, não sejamos mais cruéis com ele do que com nós mesmos e tratemo-lo como um igual.

Parece-me às vezes ouvir o vinho falar - ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam: - "Homem, meu bem-amado, quero levar até você, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e de esperança. Não sou ingrato; sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida, e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade; porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais do que as adegas melancólicas e insensíveis. É uma tumba alegre onde eu cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.

Ouve agitar-se em mim e ressoar os poderosos refrãos dos tempos passados, os cantos de amor e de glória? Sou a alma da pátria, sou metade galante, metade militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho torna prósperos os dias, o vinho torna felizes os domingos. Os cotovelos sobre a mesa da casa e as mangas arregaçadas, assim você me glorificará orgulhosamente e ficará verdadeiramente contente.

Iluminarei os olhos de sua velha mulher, a velha companheira de suas tristezas cotidianas e de suas mais velhas esperanças. Abrandarei o seu olhar e porei no fundo de suas pupilas o brilho da juventude. E seu caro menino, branquelo, este pobre burrinho atado à mesma fadiga que o cavalo, a ele devolverei as belas cores de seu berço e serei para este novo atleta da vida a óleo que fortifica os músculos dos velhos combatentes.

Cairei no fundo de seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. Nossa íntima reunião criará a poesia. Para nós dois faremos um Deus e flutuaremos ao infinito, como os pássaros, as borboletas, os filhos da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."

Eis o que canta o vinho em sua linguagem misteriosa. Maldito seja aquele cujo coração egoísta e insensível às dores de seus irmãos nunca escutou esta canção!
"

>>> Trecho de Do Vinho e Do Haxixe, de Charles Baudelaire <<<

 

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"i'm paranoid, but i'm not an android"