Profundos prazeres do vinho...
... quem não os conhece? Quem quer que tenha tido um remorso a aplacar, uma lembrança a evocar, uma dor a esquecer, um castelo na Espanha a construir, todos enfim já o invocaram, deus misterioso escondido nas fibras da videira. Como são grandes os espetáculos do vinho, iluminados pelo sol interior! Como é verdadeira e abrasadora esta segunda juventude que o homem dele retira! Mas como são, também, perigosas suas volúpias fulminantes e seus encantamentos enervantes. E, no entanto, digam, do fundo da alma e da consciência, juízes, legisladores, aristocratas, todos vocês a quem a felicidade torna doces, a quem a fortuna torna a virtude e a saúde fáceis, digam quem de vocês terá a coragem impiedosa de condenar o homem que bebe o gênio?
Além disto, o vinho não é sempre este terrível lutador certo de sua vitória e que jurou não ter nem piedade nem misericórdia. O vinho é como o homem: não se saberá nunca até que ponto podemos estimá-lo ou desprezá-lo, amá-lo ou odiá-lo, nem de quantos atos sublimes ou perversidades monstruosas ele é capaz. Portanto, não sejamos mais cruéis com ele do que com nós mesmos e tratemo-lo como um igual.
Parece-me às vezes ouvir o vinho falar - ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam: - "Homem, meu bem-amado, quero levar até você, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e de esperança. Não sou ingrato; sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida, e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade; porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais do que as adegas melancólicas e insensíveis. É uma tumba alegre onde eu cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.
Ouve agitar-se em mim e ressoar os poderosos refrãos dos tempos passados, os cantos de amor e de glória? Sou a alma da pátria, sou metade galante, metade militar. Sou a esperança dos domingos. O trabalho torna prósperos os dias, o vinho torna felizes os domingos. Os cotovelos sobre a mesa da casa e as mangas arregaçadas, assim você me glorificará orgulhosamente e ficará verdadeiramente contente.
Iluminarei os olhos de sua velha mulher, a velha companheira de suas tristezas cotidianas e de suas mais velhas esperanças. Abrandarei o seu olhar e porei no fundo de suas pupilas o brilho da juventude. E seu caro menino, branquelo, este pobre burrinho atado à mesma fadiga que o cavalo, a ele devolverei as belas cores de seu berço e serei para este novo atleta da vida a óleo que fortifica os músculos dos velhos combatentes.
Cairei no fundo de seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. Nossa íntima reunião criará a poesia. Para nós dois faremos um Deus e flutuaremos ao infinito, como os pássaros, as borboletas, os filhos da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas."
Eis o que canta o vinho em sua linguagem misteriosa. Maldito seja aquele cujo coração egoísta e insensível às dores de seus irmãos nunca escutou esta canção!
>>> Trecho de Do Vinho e Do Haxixe, de Charles Baudelaire. <<<

RICARDO MALTA BARBEIRA - 4:02 PM
Não enche!
Quinta-feira, Julho 07, 2011
Não sei ao certo por qual motivo, mas em julho as coisas sempre me parecem mais bêbadas que o normal.
Há exatos 8 anos atrás no Mano News:
NEWS # 1 - - - Após um longo e tenebroso inverno, voltei ontem ao famigerado 'Bar do Lê' (também conhecido como 'Lê Rock Bar'). Óbvio que entornei o caneco com um caminhão de cervejas, algumas vodkas, um vinho feito à base de gnomos (sério!) trazido pelo amigo Cabral e a indefectível Maria-Mole. Como o objetivo do 'news' é dar alguma informação de útil, e não para eu ficar me gabando do que bebi, informo que o Lê aceita vale-refeição e cobra módicos 10% em cima. Ou seja, ao invés de ficar comendo um monte de porcarias na hora do almoço, guarda os vales, e dá uma passada por lá para tomar aquela cervejinha gelada, ouvir o legítimo 'rock-paulina' e comer o melhor queijo de minas produzido em Guarulhos.
NEWS # 2 - - - Fora os bêbados camaradas de sempre, também estavam no boteco personalidades do meio artístico, como Magrão (guitarrista e vocalista da banda 'Jesus Malvado'), Marquinhos (baixista da banda sabe-se-lá-deus-que-fim-tiveram 'Injustiça Musical') e Bola (o dono do mais antológico refrão do rock-paulina: 'Me deixe em paz, ô ô Lú-ci-fer!'). Infelizmente, Moya (o narigudo mais ridículo a tocar guitarra na zona norte) não apareceu por lá. Em compensação, uma de suas garotas (que prefiro não revelar chamar-se Camila) estava, e fez revelações bombásticas a respeito das preferências sexuais deste não muito respeitado vendedor da Made in Brazil. Tais revelações serão tema de um futuro 'news', que deverá ter mais citações a 'KY', do que uma entrevista coletiva do time do São Paulo. Outras informações a qualquer instante.
Realmente era uma boa época de se viver. Não que hoje não seja, mas a inflação e principalmente o Sr. Kassab transformaram os bares num lugar menos legal do que encher a cara em casa com os amigos numa empolgada partida de pôquer.
Agora que tal um poema do velho Bûk? Mais um post do Mano News, agora de 8 de julho de 2003.
19:52hs.
Véspera de feriado para quem mora em São Paulo. Isto significa aumento no uso de álcool e drogas, uma maior incidência de sexo com seres estranhos (cuma?) e um sem-número de fatos curiosos que assolam esta louca terra de contrastes. No melhor espírito baladeiro de ser, mando um poeminha de um cara, que quem não conhece tem a obrigação de procurar algum livro dele no boteco mais próximo, e quem o conhece já deve estar tomando todas a uma hora dessas.
Em tempo: Dedico o poema a todos os bêbados, sóbrios ou não, que sabem que o álcool é melhor amigo do que um cão. E especialmente a meu pai, que além de um grande bêbado, completa mais uma primavera hoje. Como ele ainda pensa que 'internet' é uma doença venérea, não há a mínima chance dele ler isto. Mesmo assim, deixo meus parabéns a um dos culpados por você estar lendo estas toscas linhas.
Poema nos meus 43 anos
Poem for my 43rd birthday
Terminar sozinho
To end up alone
no túmulo de um quarto
in a tomb of a room
sem cigarros
without cigarettes
nem bebida
or wine
_careca como uma lâmpada,
_just a lightbulb
barrigudo,
and a potbelly
grisalho,
grayhaired,
e feliz por ter
and glad to have
um quarto.
the room.
... de manhã
... in the morning
eles estão lá fora
they're out there
ganhando dinheiro:
making money:
juízes, carpinteiros,
judges, carpenters,
encanadores, médicos,
plumbers, doctors,
jornaleiros, guardas,
newsboys, policemen,
barbeiros, lavadores de carro,
barbers, carwashers,
dentistas, floristas,
dentists, florists,
garçonetes, cozinheiros,
waitresses, cooks,
motoristas de táxi...
cabdrives...
e você se vira
and you turn over
para o lado esquerdo
to your left side
pra pegar o sol
to get the sun
nas costas
on your back
e não
and out
diretos nos olhos.
of your eyes.
Poema de Charles Bukowski.
Tradução de Jorge Wanderley.
Faz parte do livro 'Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski' (Bertrand Brasil).
RICARDO MALTA BARBEIRA - 8:16 AM
Não enche!
Segunda-feira, Abril 11, 2011
Desde os 15 anos procurava as luzes da cidade. Na companhia dos amigos, da música ou da própria solidão. Sempre nas noites mais escuras.
Não era uma questão de medo, mas sim de culpa. Não havia motivo para isso. Apenas sentia.
E o que era para ser um discreto abismo de alguns anos transformou-se em uma sombra. Sem alarde. Acumulada um dia após o outro.
Importar-se com isso ia de encontro às suas convicções. Negar era afastar uma tristeza que quase sempre acalentava. Então segue a vida. Como tantas outras.
Os dias começam a ficar mais longos, as noites mais sérias. Meia década perdida. E depois uma paz que dura tempo demais.
Nada parece tão real quanto um final. E tantos são os finais que nada significam. Porque perdemos muito tempo procurando sentido. E pode ser que ao sentirmos seja tarde demais.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 10:28 AM
Não enche!
Terça-feira, Março 01, 2011
Negative Experience
Hoje acontece a abertura da exposição de fotografias Negative Experience, do amigo Davilym Dourado.
A exposição será na Caixa Cultural da Praça da Sé, e estará aberta para o público em geral de amanhã, 02 de março, até 1º de maio de 2011.
Como parte da festa de lançamento, haverá show da banda Mama Gumbo no Bar B, a partir das 23hs de hoje, com entrada livre.
O Bar B fica na Rua General Jardim, 43, entre a Estação República do Metrô e a Love Story.

RICARDO MALTA BARBEIRA - 8:10 AM
Não enche!
Domingo, Janeiro 02, 2011
Da Queda
O precipício chega a meus pés e não posso mais caminhar
Ele me encara como se quisesse provar algo
Talvez retribuir um gesto infeliz
Ou só para mostrar o quão imponente é
Tudo é silêncio por todo o tempo que isso dura
Nada parece se mexer em parte alguma
Sei que logo vou começar a sufocar
Mesmo que de algum jeito acabe me salvando
Então sou empurrado pela primeira vez
Caio de costas na estrada que percorri
E antes que levante completamente
Sou novamente empurrado
Antes que me dê conta do que posso fazer
Sou empurrado mais e mais
Por todo o trajeto que por anos encarei
Cada momento de alegria e de dor
Não consigo me prender a nenhum deles
E sinto ter caído no inferno
Por não poder lembrar de minhas escolhas
Mais ainda por não me importar
E quando finalmente há uma trégua
Me levanto com cautela
Sinto um sorriso sem lábios me observar
A surpresa chega antes do medo
Estou no lugar aonde os pedaços se encaixaram pela última vez
De novo o início de que tão pouco me afastei
E que por tantas vezes me torturou
Um reflexo daquilo que nunca poderia ter sido
Com o pé direito dou o primeiro passo de hoje
O precipício está mais longe do que meus olhos podem ver
Para que uma brisa traga seu sussurro
"Eu sempre amarei você."
RICARDO MALTA BARBEIRA - 1:54 AM
Não enche!
Quinta-feira, Novembro 11, 2010
Pouco me lembrava do caminho até aqui. Mas minhas mãos facilmente encontraram a ordem certa de letras e números. O endereço fácil e de comum acesso. A escrita besta, que poderia ser uma fala mole, é aquela mesma de antes. O vocabulário pouco mudou. Os livros na estante ou fora dela são os mesmos. E todas aquelas pequenas coisas ao redor continuam por aí. Para que eu tropece enquanto ando. Para que eu me atrase para um compromisso. Para que eu lamente quando estiver distante. Não volto tanto quanto quero, mas gosto de saber de que ainda tenho para aonde me arrastar. Nas noites quentes. Nas madrugadas frias. No amanhecer feroz.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 12:42 AM
Não enche!
Domingo, Agosto 01, 2010
Tinha até esquecido que eu tinha um blog.
Uma hora dessas eu volto (de verdade).
Enquanto isso, no twitter...
RICARDO MALTA BARBEIRA - 11:26 AM
Não enche!
Segunda-feira, Junho 07, 2010

No último sábado escutei - após muito tempo - o álbum Tender Prey do Nick Cave & The Bad Seeds. E como não podia deixar de ser, The Mercy Seat uma vez mais ficou na minha cabeça.
Dentre tantas canções compostas por Mr. Cave, esta é com certeza uma das mais brilhantes, ao unir letra e instrumental claustrofóbicos, que ao crescer lentamente vão envolvendo o ouvinte numa espiral de angústia e desespero.
Uma prova disso é a estrofe principal que se repete inúmeras vezes, com pequenas alterações na letra:
And I think my head is burning
And in a way I'm yearning
To be done with all this measuring of truth.
An eye for an eye
A tooth for a tooth
And anyway I told the truth
And I'm not afraid to die.
Como hoje à tarde a canção voltou à minha cabeça, fiquei procurando todos os vídeos possíveis dela na internet. Encontrei alguns bacanas. Esta versão é minha favorita até o momento:
Este é o mais próximo de um clipe que a música tem:
Já esta outra versão ao vivo também é muito boa:
Somente Nick Cave ao piano. Especialmente para um programa da TV japonesa:
Para encerrar, a fabulosa versão executada por Johnny Cash no álbum American III: Solitary Man:
And I think my head is burning
And in a way I'm yearning
To be done with all this measuring of proof.
A life for a life
And a truth for a truth
And anyway there was no proof
But I'm not afraid to tell a lie.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 6:31 PM
Não enche!
Segunda-feira, Maio 10, 2010
Após passar o domingo das mães na casa dos meus pais, fiquei com uma preguiça daquelas que faz a gente afundar no sofá até sobrar bem pouco do lado de fora. Como resultado acabei dormindo por lá mesmo. Jogado em meu antigo quarto, trocando novas ideias com os velhos fantasmas.
Voltando hoje para o apartamento, meio que sem opções musicais que realmente valessem a pena, acabei parando numa coletânea do Suede. Quando começo a escutar, sinto uma sensação boa que normalmente lembra nostalgia, mas que ainda não era exatamente isso.
Mas quando começa a tocar The Wild Ones, me recordo de uma grande amiga que adorava essa música e que por sinal me apresentou-a. É até hoje uma das minhas canções prediletas. Daquelas que faz a gente duvidar por alguns minutos de que a solidão não seja o melhor caminho.
We'll shine like the morning and sin in the sun oh if you stay
We'll be the wild ones running with the dogs today
Acho que vou telefonar para a minha amiga. Para vocês deixo o clipe de The Wild Ones.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 9:30 PM
Não enche!
Terça-feira, Abril 13, 2010
Desenterrando uma resenha de uns cinco anos ou mais, de uma antiga coluna intitulada no meu discman.

This is my Truth Tell me Yours foi lançado em 1999 e é o quinto álbum dos galeses do Manic Street Preachers. O nome é uma frase utilizada pelo socialista galês Aneurin Bevan ao final de seus discursos.
A banda costuma mesclar letras extremamente pessoais e outras de cunho político/social, com um instrumental afiado que vai de músicas quase sinfônicas a porradas cruas, no melhor estilo punk rock. Enquanto a parte instrumental é composta pelo guitarrista e vocalista James Dean Bradfield e pelo baterista Sean Moore, as letras são escritas pelo baixista Nick Wire.
A segunda faixa deste disco, If You Tolerate This Your Children Will Be Next, foi o primeiro single do grupo a chegar ao número 1 da parada inglesa, e é uma balada maravilhosa que chega a emocionar com a sua simplicidade. A letra fala da Guerra Civil Espanhola, e o título da música, que também é o refrão, era o grito de guerra das Brigadas que combatiam o governo do General Franco, compostas por muitos voluntários oriundos de outros países.
A seguir vem You Stole the Sun from My Heart, um rockão que parece trilha-sonora de propaganda de cigarro, e que é um misto de dor de corno, com um olhar mais complacente para o futuro. Duas estrofes não-sequenciais que merecem uma reprodução:
But it don't come easy
I love you all the same
I have, I've got to stop smiling
It gives the wrong impression
But I love you all the same
Tsunami fala das irmãs gêmeas June e Jennifer Gibbons, que em meio à pobreza em que viviam no Reino Unido nos anos 80, cometeram vários atos de vandalismo, entre outros crimes. Internadas num hospital psiquiátrico, e com uma pesada medicação, desenvolveram uma comunicação própria, indecifrável para os outros.
Segundo consta, quando uma delas morreu, a outra se viu na necessidade de voltar a comunicar-se com o mundo. Descrito como um tsunami pessoal, isto teria como paralelo o que aconteceu com Nicky Wire, que após o desaparecimento de Richey James (guitarrista dos Manics), se viu como único letrista da banda.
My Little Empire é uma pequena obra-prima, que parece falar do umbigo que nós teimamos em achar tratar-se de um quasar que eventualmente sugará a tudo e a todos.
Um refrão no mínimo revelador, com uma tradução porquíssima:
Estou ficando doente de estar doente
Em meu pequeno império
Estou cansado de de estar cansado
Em meu pequeno império
Estou chateado de estar chateado
Em meu pequeno império
Estou feliz de estar triste
Com apenas uma guitarra acústica, um acordeão e a voz de James Dean Bradfield, Born a Girl é a música deste disco que acaba com todas as outras. Nela parece haver várias referências à adolescência dos membros da banda, que na época eram os únicos em sua cidade que vestiam-se e se maquiavam no melhor estilo glam, ou mais similar às bandas farofa, já que eram os anos 80.
Para muitos, o refrão tem uma cara de música "de transformação". Para mim, é a sensação de absoluto fracasso por parte de um cara:
And not this mess of a man
And not this mess of a man
And not this mess of a man
Há vários outros belíssimos sons que ao menos merecem menção, como Be Natural, I'm Not Working, You're Tender and You're Tired e The Everlasting.
Na realidade, o álbum inteiro é uma coletânea de músicas para se lavar a alma com muito estilo. Composições em grande parte bucólicas e belas, e letras quase sempre com algo pertinente a dizer. E mesmo quando não há "pertinência", você acaba encaixando-a em algum aspecto de sua vida, fazendo com que ela ganhe importância.
Para finalmente fechar o post, o refrão de Nobody Loved You:
RICARDO MALTA BARBEIRA - 2:24 PM
Não enche!
Domingo, Março 28, 2010
A preguiça anda consumindo a maior parte do meu tempo.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 12:56 PM
Não enche!
Sexta-feira, Fevereiro 26, 2010
Tenho que parar de me preocupar com o que não depende de mim, e voltar a dar atenção a quem se importa comigo.
Não me sinto feliz ou sequer satisfeito, mas algo aqui dentro parece ter estalado.
O que vai acontecer a seguir, não tenho o mínimo interesse em saber.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 7:42 PM
Não enche!
Terça-feira, Fevereiro 23, 2010
Recomeço a pensar em um jeito de morrer,
após tanto andar, cansado de sangrar.
Quero a redenção para este sofrer.
Já estou farto... agora vou parar!
Parado me sinto morto!
Em minhas penas reconheço um corvo.
Poderia ser de qualquer um este meu corpo,
mas pertece a mim, pois já estou louco.
Na loucura... me encontro em dúvida!
A insanidade é sã em demasia.
Tenho saudade, bebo goles de nostalgia.
Novamente estou só, em meio à orgia.
Nesta orgia... estou desolado!
Pareço um zumbi, algum patético soldado.
Numa guerra sem fim alguém rola os dados,
e vidas se perdem. Acabo idolatrado!
A idolatria me mostra o que odeio em todos nós.
Essa necessidade de deus, esse rezar numa só voz.
Quando crianças, receamos a maldade,
e adultos, louvamos a alheia bondade.
Não louvo a bondade, prefiro estar aquém,
de qualquer forma de controle, de pensar, de dizer amém.
Termino falando do mesmo jeito que comecei,
pensando na morte, dizendo quem não sou... ninguém!
[31 de março de 1997]
RICARDO MALTA BARBEIRA - 12:13 AM
Não enche!
Sexta-feira, Janeiro 29, 2010
Mais um ébrio episódio puxado dos arquivos Mano News. Este datado de 1º de setembro de 2003, narra a vez em que acabei bêbado e perdido no Jaçanã.
Certo, vamos nessa:
Sábado foi dia de DJ Club. Fui para lá com o Milguêrs e a Dani. Quando estávamos na plataforma do metrô Santana, já munidos do indispensável litro de vinho frizante, escutamos um estrondo que vem da avenida Cruzeiro do Sul. Olhamos e lá estão estendidos no chão, um motoqueiro, seu namorado, e claro, sua moto. Aglomera-se aquela muvuca de manés, e entre uma e outra piada infame que fazemos, percebemos de cara que a balada vai ser daquelas. Sinais, mora? Assim que chegamos à rua Pamplona, já paramos num bar, pedimos várias legítimas, antes de adentrarmos a casa. Uns amigos da Dani juntam-se a nós, e as porcarias que falamos ganham status de arte. Claro que antes de sair do boteco, peço uma Soft-Mary para viagem. Entrando no DJ, rola uma caipora de pinga, depois peço algumas brejas, outra caipora, só que agora de vodka, e... fudeu! Começo a alucinar, como é de praxe, falar coisas sem sentido, como é notório, e acabo ficando mal. Após um longo descanso na portaria, trocando idéia com o Segurança Gente Finíssima, com o Mano do Hot-Dog e com a Hostess Delícia, acabo melhorando. Sou estilo o Wolverine, meu fator de cura funciona melhor quando mais requisitado. Pelo resto da noite não bebo mais, já pensando no...
Domingo. Saio por volta das seis e meia da tarde para ir ao Bar do Aranha, assistir aos show do Transistors, Sniff my Balls e Skywalkers. Encontro o bêbado do Benicio no boteco, já munido da internacionalmente reconhecida Canelinha de Artur Alvim. Um fato curioso: Lembram do cara que tentava ligar para sua namorada em Portugal, de quem comentei em "A Saga Mod de Milguêrs e Malta"? O safado estava no boteco, mas não perguntei se ele tinha conseguido completar sua ligação transcontinental. Antes de entrar, encontramos a Monika e a Viviane. Esta última, sendo a minha paixão não consumada. Uma vez dentro do Aranha, recomeçamos a Saga das Cervejas, e uma hora mais tarde, o Benicio saiu para buscar o litro de canelinha, que havia escondido num arbusto próximo. Nada define melhor o quão toscos somos, do que esta cena em particular: O desgraçado volta com a canela, eu peço um copo ao barman e começamos a falar sobre a exposição do Napoleão. O resto da balada do Aranha não é muito mais do que isso, mas em compensação há espaço para minha performance solo no...
Jaçanã. Saí por volta de 20 para a meia-noite do bar. Não estava bêbado, apenas divertido. Peguei o ônibus, e um pouco depois do metrô Tatuapé, começou a soar o divino som de trombetas, e estranhei, afinal, não curto trombetas ou nada parecido. Continuei andando para ver se encontrava algum boteco aberto, mas não tinha nenhum naquela porqueira de lugar. Reparei então que estava com uma roupa um pouco apertada, e quando olhei, era o uniforme do Batman. Não a dos filmes, mas a da série dos anos 60. E a minha barriga parecia uma cópia fiel da proeminente pança do Adam West. Pensei algo como: "mas que diabos...", e notei que segurava em uma mão um copo de martini, mexido, não batido. Tomei o líquido vital, e quando olho para o lado, vejo o Gilberto Barros. Gritei como só mulheres bêbadas conseguem. Antes que tivesse um ataque cardíaco fulminante, ele começou a falar: "Cara, aqui é o ponto final". Acordo com um sobressalto e desço do ônibus. Quando percebo, estou numa praça completamente escura. Murmuro "Mas que porra..." e o ônibus vai embora, levando o último resquício de luz. Olho para o relógio e são dez para a 1 da manhã. Quando começo a ficar fudido com o fato de ter perdido o meu ponto, e ido parar no meio do nada, começa uma crise de riso. Acendo um cancerígeno, e saio andando pela rua. Após um ou dois quarteirões, reconheço um colégio, e começo a fazer uma pequena idéia de aonde estou. Graças à providencial sorte dos perdedores, encontro um táxi. Grito "Siga aquele carro", e vou-me, dentro daquele monstro de metal. Entre um monte de risadas, relato minha jornada ao nobre profissional que tanto auxilia os irmãos ébrios noite afora. Rimos de minha pequena aventura burguesa, e chego em casa ainda rindo. Parafraseando uma música do Manic Street Preachers, ninguém sabe como é uma merda ser eu.
*** *** ***
Em tempo: Transistors é bem legal, Sniff my Balls é uma porcaria, e no Skywalkers, eu já não sabia mais de nada. Na pista do DJ Club, rolaram várias músicas horrorshow, como "Blue Monday", "Psycho", "Kinky Afro", "Every You Every Me" e um montão de outras que não me recordo agora.
Trilha-Sonora: Este pequeno relato foi escrito ao som de poucas músicas. São elas: "Sister Ray", "Sweet Jane", "White Light/White Heat" e "Venus in Furs", do Velvet Underground. "My Girlfriend's Girlfriend", do Type O'Negative, "Nearly Lost You", do Screaming Trees e "Sober", do Tool.
Para Finalizar: Estas linhas foram patrocinadas por Canelinha Artur Alvim, aquela que nunca diz não.
Para Finalizar de Verdade: O Mano News está de luto, devido ao falecimento do gigantesco Charles Bronson. Agora o Paul Kersey vai poder matar novamente, os caras que assassinaram sua esposa.
RICARDO MALTA BARBEIRA - 1:10 AM
Não enche!
Terça-feira, Janeiro 12, 2010
Às vezes é difícil pensar. E quase sempre é ainda mais complicado fazer com que esses pensamentos se tornem palavras.
Estava com vontade de escrever um monte de coisa, mas de repente a escrita ficou pesada demais. Na minha cabeça formou-se um enorme branco, praticamente uma parede, que não deixa nada passar.
Aos poucos algumas frestas começam a aparecer. No entanto, nada que passa por elas é realmente algo que valha a pena.
Costumo ser intenso em tudo que tenha relação comigo. Mas me canso fácil.
Estou cansado agora. Não sei até quando.
Pouco importa. Logo começará tudo de novo.